Rumo a Uyuni – Oitavo dia – O Céu

“No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas.”

Aristóteles

Parte 8

Tem que sair da cama?

Sim!

O frio batia a nossa porta naquela madrugada de primavera andina, mas foi o maldito despertador que nos deu a notícia de que aquela noite de sono devia se encerrar naquele momento. Eram três da manhã e pulamos da cama. Não queríamos perder por nada o nascer do sol no meio do Salar de Uyuni. Mas dessa vez seria diferente. O sol nasceria em um espelho d’água. Continuar lendo

Anúncios

Rumo a Uyuni – Sexto dia – O deserto

Parte 6

O despertar

Em nosso segundo dia nos Altiplanos Bolivianos, o silêncio da noite fria e escura a borda do salar de Uyuni, em nosso Hostel, foi quebrada pelo barulho irritante do despertador do celular que foi recebido com alegria. Hora de levantar para mais um grande dia no meio do que muitos chamariam de nada, o Deserto de Siloli.
Não tinhamos tempo a perder. Levantar, lavar o rosto e escovar os dentes, guardar tudo nas mochilas e ir para o restaurante do hostel tomar o café da manhã que estava marcado para 5:30. Cereis, iogurte, suco, geléia, sono, café, leite, frutas e aquele pão redondo que em nada lembra o nosso pãozinho francês. -Talves seja por isso que ganhei um quilinho a mais.-
6:00, todos a bordo para partirmos do hostel de Sal em Santiago de Chuvica rumo à Laguna Verde através do Deserto de Siloli.

Mar adentro

Pegamos uma estrada de terra que se alternava com borax que beirava a montanha que se erguia a borda daquele lago de sal enquanto o sol nascia. Cruzamos plantações de quinua ladeadas de encostas salpicadas com tumbas incas. O céu era de um azul limpo e profundo. Nenhuma nuvem nos ameaçava.

160929jj6274-fullhd
Nas montanhas, a marca deixada pelo mar.
Naquele momento, um detalhe que muito nos chamou atenção foi a divisa na montanha que mostrava até onde o mar, outrora, encostou e deixou seu rastro para os CSI da história natural através corais fossilizados.
Nossa primeira parada foi no Salar de Tiguana, que é um lago de borax (borato de sódio, usado desde tratamento termoquímico e fabricação de vidros óptico a fertilizantes e conservante de caviar). Descemos e notamos que aquele sal não era duro como o do Salar de uyuni, mas bem fofo. E por isso o nosso Anjo da Guarda e guia diminuiu a pressão do pneu do carro (parar e calibrar o pneu era algo constante).
160929jj6303-fullhdProsseguimos e passamos pelo povoado de Julaca no cruzamento da linha férrea com a estrada, com algumas poucas casas erigidas com parede de adobe e telhados de zinco ou de palha no meio daquela poeira. Vimos circulando nas ruas mais lhamas domésticas que pessoas. Segundo nosso guia, ali, só viviam sete famílias e que as cores dos enfeites das lhamas se referiam a cada família.

Há vida e pedra no deserto

8:30 passamos por uma estância chamada Chackha e paramos para fotografar as lhamas.

160929jj6389-fullhd
O olhar curioso de uma lhama analisando um ser estranho a sua frente, eu.

Nos foi recomendado para não chegar perto, pois elas cospem. -Obviamente eu não levei essa recomendação em consideração e cheguei perto. Por sorte e perícia de principiante, consegui fotografá-la sem tomar uma cuspida.- Essa Estância fica em um vale verde e alagado, onde cresce uma grama verde escura no meio do marrom desértico. Um verdadeiro oásis sem palmeiras. -Por falar em árvore, já eram dois dias sem ver uma única árvore.-

Seguindo a estrada, passamos por Las Rocas que é uma área de uns 30 quilômetros quadrados formado pelo de rochas originadas do derramamento vulcânico. Aquele tapete de rochas abriu caminho para passarmos naquilo que parecia impenetrável.
Apesar do cansaço, os olhos não fechavam, não queríamos perder uma cena da paisagem nos campos de altitude, vales, desertos e montanhas. Avestruzes selvagens, palha brava, vicunhas, terra e poeira entraram para nossa memória. Durante essa travessia, Alexandre conversou muito com o Walter em espanhol e depois nos contava o que havia conversado em inglês para que Xue Quin, Zhou Sheng e Jiyeon Kim entendessem. -Quer saber quem são esses? Então clique aqui e leia o capítulo anterior.-
Naquele trecho entre Julaca e Alota, o GPS nos disse que passamos por Uchisa e San Agostin, mas só o que vi foram campos de altitude salpicados de palha brava. Essa palha também é usada para fazer os telhados de muitas casas por aqui. Depois dali, ainda passamos pela Vilamar Mallcu, onde havia uma cancela e pediram nossos documento. -Me senti naqueles filmes em que o protagonista tenta cruzar a fronteira antes que os bandidos cheguem.-
Seguindo em frente, mais um salar, o Salar Capina, novamente com borax. Esse, se não prestássemos atenção, parecia ser apenas uma terra bem clara de longe. Por várias160929jj6531-fullhd vezes, Walter, o nosso guia, nos falou sobre a extração de diversos elementos dos salares da região eram a fonte de riquezas. Ali, havia atividade mineradora, mas parecia que estava abandonado, como o cemitério de trens. Naquele momento, os equipamentos estavam mortos, sem o sopro de vida de alguém que o faz se mexer, exceto de um trator que removia as pedras da estrada feita de terra e sal e que nós passaríamos depois que a máquina terminasse de deixar seu rastro.
Além do borax, disse Walter, também há extração de magnésio, potássio e principalmente de lítio (O Salar de Uyuni possuia a maior reserva do mundo, de 50% a 70% da reserva mundial).
Dentro ainda desse Salar, fica o posto da entrada da Reserva Nacional da Fauna Andina Edurado Avaroa onde pagamos a entrada B$ 150,00 (cento e cinquenta pesos boliviananos, que o que equivalia naquele dia a R$ 75,00) que nos dava direito a trafegar pelo parque e dormir em um alojamento próximo a Laguna Colorada.

Para o alto e avante!

Agora, estávamos dentro da Reserva, havíamos saído da confortável zona dos dos 3700

160929jj6550-fullhd
Uma das muitas paradas para calibrar o pneu do carro.

metros de altitude do Salar de Uyuini e ultrapassamos os quatro mil. Só subíamos, subíamos e subíamos. A essa altura, altitude, para ser mais exato, até o motor 4.0 de seis cilindros a gasolina da Land Cruiser que estávamos sofria com falta de ar. Apesar daquele ser um motor potente ao nível do mar, ali ele se comportava como um carro 1.0 brasileiro. Por várias vezes, Walter abria o capô do carro para o motor esfriar durante nossas paradas. O radiador também é menos eficiente no ar rarefeito, apesar do frio. -Se o carro sofria, por que não sofreríamos?- Walter comentou que os carros com motor V8 sofrem menos para enfrentar esse terreno que cruzamos.

Onde estará o chá de coca?

E foi a partir dos 4000 metros a memória começou a falhar. Chegamos até os 4900 e fui pego pego pelo mal de altitude -O tal do soroche.-, com dor de cabeça, confusão mental e só mesmo um chá de coca para aliviar.

Depois de um tempo, que não lembro bem, finalmente a tão esperada parada em um restaurante. -Não para almoçar, mas para tomar meu chá de coca.-

160929jj6565-fullhd
Parada para o chá nas termas de Polques.
-Pronto!- Depois de tomar uma xícara de chá, meu cérebro voltara a registrar o mundo que me rodeava. -Bom… Agora vamos à descrição do lugar.- Era a beira de um lago de salmoura com ilhas de sal e na beira havia uma piscina de água quente no meio daquele frio de doer de fim de inverno a quase cinco mil metros de altitude. Um restaurante pequenino e um banheiro mal cheiroso com aqueles sanitários que são um buraco no chão onde suas necessidades caem em um tambor abaixo do chão. -Eca! E ainda paguei para isso.- Hora do almoço para recobrar as energias e descansar. -Continuo não lembrando o que comi, acho que o chá não havia feito efeito.- Aqui, não me preocupei em fotografar, apenas em relaxar na piscina de água quentinha onde conhecemos dois holandeses -Eram holandeses mesmo? Como disse, minha memória me deixou na mão-. Estava muito bom descansar naquela piscina, mas como aquele famoso ditado: Depois da bonanza, vem a tempestade. No nosso caso era depois da água quentinha a 40 graus celcius, vem um puta dum frio até chegar no vestiário para tomar um banho para tirar o sal do corpo e vestir a roupa. Pronto! Sacrifício feito, dentro da roupa e todos a bordo do Walter Móvel. -E só depois que fui descobri que o nome desse lugar era Terma de Polques à beira do Lago Chaviri.-

O deserto é colorido!

Agora, atravessando o Deserto de Siloli, estávamos dentro do Reserva e a nossa próxima parada seria a Laguna Verde, mas não sem antes ver as cores do Deserto de Salvador Dali. Ali, Tons e sobre tons marcaram a nossa visão. Não imaginava que uma criação natural

160929jj6538-fullhd
Obras de arte feitas pela natureza.

pudesse se assemelhar tanto à uma obra de arte feita de terra. Além da beleza das cores, rochas isoladas remanescentes de explosões vulcânica, pois a região tem muitos, compunham a paisagem.

Acho que foi essa hora que vi o Alexandre mais eufórico com a paisagem. Ele se emocionou ao ver as cores do deserto e acho que se você leu até aqui, tem que ver as fotos dele.
Mas o ar rarefeito estava começando a cobrar seu pedágio. Já estava difícil de respirar. Mas… Vamos em frente.

Laguna Verde

Finalmente chegamos naquelas lagunas salinos ao pé do vulcão inativo Licancabur na

160929jj6575-fullhd
Laguna Verde.

divisa com o Chile, a Verde e a Blanca. Aqueles duas originadas da água retida do oceanos e que hoje está a mais de 4300 metros de altitude, tem características bem distintas e interessantes apesar da proximidade. Uma, com uma superfície praticamente coberta por sal branco. A outra, líquida, tem uma coloração que vai do turquesa ao esmeralda, dependendo da incidência da luz do sol e da interferência do vento em sua superfície, por causa da sua grande concentração de arsênio em suspensão e outros minerais.-Por isso, não ousamos beber daquela água.- Nos disseram que essa lagoa era estéril, mas para nossa surpresa, vimos alguns flamingos em suas águas. -Seriam flamingos suicidas?-

Não ficamos muito tempo ali. Ainda havia muita poeira para aquele dia e partimos.

No Geiser.

160929jj6679-fullhdEra fim de tarde e fomos para o Sol de Mañana, um campo geotermal com caldeirões de lama borbulhantes e válvulas por onde aquele chão de rocha aliviava sua pressão. Essa novidade fascinou o olhar de nós dois, brasileros. -No Brasil não tem.- Em algumas das crateras, além do vapor, cores chamavam a atenção. Aquele mingau borbulhante era rodeado de crosta amarela com cheiro de enxofre.

Vamos pro hotel?

Saímos para uma longa travessia no deserto até chegar ao alojamento um pouco antes de anoitecer e o efeito do chá de coca acabou no caminho.
160929jj6693-fullhd
Chegando no hotel.

Chegamos ao hotel perto do cair da noite. Um hotel não é de sal. Nem é hotel. É um alojamento que fica dentro do parque e o seu uso está incluso no ingresso do parque. Os quartos são para seis pessoas. As camas eram feitas de alvenaria. Baterias sustentavam a energia elétrica e havia apenas uma tomada disponível com muitas extensões, tês e gatos para os turistas recarregarem suas baterias de câmera, celular e qualquer outra coisa. Porém, havia horário de energia. Restava-nos esperar a hora da luz para carregar tudo.

Novamente, eu não estava nem um pouco a fim de fotografar, eu só queria jantar, tomar um chá de coca e dormir. Estávamos tão cansados que nem tomamos o vinho que Walter trouxe para nós. A cerveja que Zhou comprou não desceu muito bem. Era a altitude nos mandando descansar. -Ou descer mesmo.- Então, fui tomar meu chá de coca, jantar, por as baterias para carregar e ser feliz. Mas não sem antes explicar para Jiyeon Kin como a câmera dela funciona e mostrar para ela como fotografar estrelas.
O banho foi de gato, era impossível tomar banho ali. Fazia frio e o o chuveiro coletivo não esquentava fora do horário, então, quando havia energia, havia fila.
Walter cobriu o motor com a lona das bagagens por causa das quedas bruscas de temperatura no período da noite que podem chegar a -25ºC.
Esperávamos passar frio a noite. Mas como tinha cinco cobertores para cada, nem precisei usar o saco de dormir que a Dona Antônia me emprestou Naquela noite, passamos calor.
Esse momento marcava exatamente a metade da viagem de 12 dias. A beleza exótica do lugar já havia capturado a nossa vontade de retornar. -Se você leu até aqui, até a próxima parte do diário da viagem.-

Parte 5

Rumo a Uyuni – Quarto dia – Sobre as águas

“Não existe um caminho para a felicidade.

A felicidade é o caminho.”

Thich Nhat Hanh

Parte 4

De Cochabamba à Uyuni

Amanheciamos o último dia da nossa jornada de ida. Só esses quatro dias já valem uma Ônibus de Cochabamba para Oruroaventura. O sol ainda não havia saído detrás das montanhas e já caminhávamos para a rodoviária com um pouco de antecedência para tomar o café da manhã conhecer um colombiano que junto com seu cachorrinho de estimação viajava a América Latina e tomar mais um chá de coca para evitar o soroche. -A essa altura “altitude se encaixaria melhor”, já não tomávamos café e sim o chá de coca.

4453 metros de altitude no caminhoPartindo de Cochabamba, passamos quatro horas no Trans Azul atravessando, subindo e descendo serras, na maioria das vezes acima dos 4000 metros de altitude. Naquele ponto, o Alexandre já se incomodava com o soroche, também conhecido por mal da altitude. Quanto mais subiamos, menos árvores. A paisagem foi perdendo rapidamente o verde para predominar o ocre. Ao chegar na pequena rodoviária de Oruro, mas não menos organizada, apanhamos um táxi (perua Toyota descartada no Japão e volante transplantado da direita para esquerda, muito comum na Bolívia) rumo a estação de trem para comprar os bilhetes e almoçar naquela cidade geométrica e monótona feita de tijolos cozidos como nas favelas brasileiras. Fomos recebidos por um sorridente e solícito atendente na estação que que nos vendeu os bilhetes e recebeu a bagagem em uma sala grande com móveis de madeira maciça e paredes revestidas pela mesma madeira. Me senti nos anos 50.

O almoço foi quase em frente à estação no melhor restaurante da cidade. Me senti rico. Na Bolívia o poder de compra de nossa moeda é muito maior. Pedi cordeiro e, novamente, os pratos foram muito bem servidos a ponto de eu não conseguir comer tudo. Já estava começando a achar que ou o meu estômago era pequeno ou o estômago dos bolivianos era grande.

Todos a bordo, pois o trem já vai partir

Expresso del Sur14 horas e todos a bordo do trem Expresso del Sur da Ferroviária Andina para Uyuni. Finalmente o último trecho que já no início nos brindou com o lago Uru Uru por onde o trem contou caminho sobre as águas em meio a bandos de flamingos andinos e chilenos. Houve um pouco de alvoroço naquele vagão cheio de alemães em virtude da bela paisagem que víamos e éramos parte. Logo, o lago foi substituído pelo altiplano com campos áridos, pastagens e plantações, os flamingos pelo gado e nossa euforia pelo sono do cansaço naquele fim de tarde.

O trem era mais conservado do que o pegamos em Puerto Quijarro. As janelas e persianas abriam, haviam tomadas no vagão de passageiros, Flamingos Andinos no lago Uhu Uhuos bilheteiros eram bem uniformizados, o vagão restaurante era melhor e possuia uma tomada por mesa para recarregar os celulares e o trem balançava menos.

Finalmente! Já era noite quando chegamos à estação de Uyuni e só nos restou buscar um lugar para dormir, novamente através do App de mapas off-line que também mostrava a nota atribuída por outros usuários ao estabelecimento.

Agora, era descansar para o tão esperado início da aventura. -Como se chegar até aqui já não fosse. 

Parte 3Parte 5

Rumo a Uyuni -Terceiro dia – Subindo a serra.

Parte 3

Parada para o café com Wi-Fi

Enquanto o sol despontava numa manhã de segunda-feira e o trem rompia o maior perímetro urbano que vimos durante toda a viagem. Era Santa Cruz de la Sierra. Hora de deixar o sono para trás e preparar a mochila para a próxima etapa.

Novos amigos no caminho
Novos amigos no caminho

O trem parou na estação Bimodal (Ônibus e trem) e de nosso vagão, como era de se esperar, as poucas pessoas que haviam, desceram. Mas o que impressionou foi a grande quantidade de pessoas que desceu dos últimos vagões. Havia outra classe? Onde elas embarcaram? 

Ainda antes de descer do trem, começamos a conversar com um casal de brasileiros que estava indo para Macchu Picchu no Peru e que passariam aquela noite em Santa Cruz, nós, seguiriamos direto. Antes de prosseguir viagem, saimos do terminal e fomos a um hotel para tomar nosso café da manhã e aproveitar a Wi-Fi de lá junto com nossos novos amigos.

Como pegar um ônibus.

Continuamos a viagem em um ônibus (cama) da empresa Bolivar até Cochabamba em uma viagem que durou dez longas horas passando em uma longa planície antes de subir a montanha. Em sua única parada, descemos em um complexo de estabelecimentos comerciais voltados à alimentação e conforto dos viajantes a borda da carreteira 4 (estrada). Tá bom! Eu estou exagerando. Em frente àquele pátio de estacionamento de terra, poeira e lama, haviam botecos, ambulantes e dois ambientes maiores que vendiam almoço. E também havia o principal, por apenas um boliviano, o banheiro. Conforme fomos subindo, a estrada ficava pior, o ônibus começou a andar mais lentamente, o clima mudou de calor para um clima agradável de montanha, as estrada ficaram sinuosas e beiradas por penhascos e os motoristas faziam ultrapassagens perigosas constantemente.

Algo que chamou muita atenção era a constante entrada de ambulantes que vendiam desde balas e almoços até sorvetes e remédios. O mais interessante foi um vendedor na chegada de Cochabamba que fez uma propaganda melhor que o Polishop para vender um extrato de não sei o que curava tudo.

Rodoviária de Cochabamba
Rodoviária de Cochabamba

Na rodoviária de Cochabamba, vimos o caos de gente gritando os destinos, eram os vendedores das lojas angariando clientes para as empresas. Restava-nos decidir a empresa que nos levaria. Em meio àquele caos de empresas que tiravam bilhetes manuais ou preenchidos na máquina de escrever, encontramos uma empresa que tinha uma fila e o atendimento era informatizado. Decidimos que era essa a que provavelmente não entariamos em roubada e foi ali, na Trans Azul, que compramos a nossa passagem para o dia seguinte com destino a Oruro.

Em busca do sono perdido.

Agora, estavamos a procura de um hotel ou hostel para descansar e encontramos um perto da rodoviária através de um App de mapas off-line. Haviam muitos outros na região, mas optamos por nos hospedar apenas naquilo que já havia referência no Trip Advisor.

Depois de um bom banho, era hora de conhecer a cidade e comer algo. Acabamos comento um Pique a lo Macho, que é um prato tipicamente boliviano composto de pedaços de carne, frango, linguiça, queijo, pimentão, cebola, tomate e batata frita misturado. A porção que nos disseram ser para uma pessoa, era mais que suficiente para quatro. Nós, que estavamos com fome, mal conseguimos comer a metade e acabamos levando a outra para uma moradora de rua.

Cochabamba nos impressionou positivamente naquele primeiro contato pois diferia muito daquilo que vimos no caminho. Uma cidade grande, aparentemente bem organizada, com prédios, teatros, cinema, restaurantes e  uma linda praça rodeada de prédios em estilo colonial espanhol, entre eles, a prefeitura e a Catedral Metropolitana, chamada 14 de Septiembre (data da independência de Cochabamba ao julgo espanhol). Como ainda precisávamos descansar, conhecer Cochabamba ficará para uma próxima vez.

Parte 2, Parte 4

Rumo a Uyuni – Segundo dia – a mão que balança o trem.

Parte 2

deixando a zona de conforto

De volta a nossa epopéia rumo ao “Novo Mundo”…

14542365_1148726845197916_1510454001869973788_o
Um dos próximos destinos, a Laguna Verde. Foto: Alexandre Camargo

– Tá bom, exagerei. Vamos voltar à realidade.

A alvorada foi regada de ansiedade na pacata cidade de Ladário-MS, não que tenha acontecido algo extraordinário, mas por que começávamos a nós sentir livre das correntes cotidianas e que a nossa existência nos próximos dias dependeria apenas de nós.

Antes de partir do Brasil, durante o café da manhã com chipa e saltenha, conhecemos algo que deve deixar qualquer gaúcho confuso, no mínimo. O refrigerante de chimarrão.

160925jj5820-fullhd
Meu amigo Marco Pollo, o Frango Viajante

E claro, fui visitar meus parentes e dar uma volta na minha cidade natal.

Ainda pela manhã, atravessamos a fronteira de Corumbá (Brasil) para Puerto Quijarro (Bolívia), onde passamos pela imigração, tanto a brasileira quanto a boliviana, uma para dar saída do Brasil e outra para dar a entrada na Bolívia. Apesar da Bolívia ser um país associado ao Mercosul e poder usar a identidade, sugiro que levem o passaporte caso queiram se aventurar em terras bolivianas, pois em todas as nossas

160925jj4891-fullhd
A primeira Paceña da viagem

hospedagens e compras de passagem, nos pediram o passaporte. A partir desse momento passamos a explorar novos campos onde muitas coisas eram novidade. A aparência caótica daquele trecho de estabelecimentos comerciais competindo com o comércio de rua, a venda de bebidas refrescantes por ambulantes, como limonada, chicha e uma outra feita de canela com um pêssego dentro chamada mucochicho. Ainda não éramos bolivianos – e nem conseguiríamos com nossas feições de turistas naquele local – mas já marcávamos a nossa chegada em terras bolivianas degustando um fruto de sua terra, a cerveja Paceña, uma pilsener premiado mundialmente em vários concursos mundiais e fabricada pela Cervecería Boliviana Nacional.

Junto a meus tios, partimos rumo à estação ferroviária para comprar nossos bilhetes, passando por um asfalto com tanta terra em cima que pouco diferia de uma estrada de terra bem batida.

O TREM, NÃO É MAIS DA MORTE

Chegada a hora, nos despedimos e embarcamos rumo à Santa Cruz de lá Sierra no Expresso Oriental em Puerto Quijarro. Hoje, apelidado de Trem do Progresso, já foi conhecido por Trem da Morte (O apelido nasceu no século passado, quando a composição era usada para transportar leprosos, doentes e corpos das vítimas de uma grave epidemia de febre amarela que se abateu sobre a região de Santa Cruz. Além disso, naquela época, a ferrovia não estava em suas melhores condições e descarrilamentos eram comuns, o que contribuiu para reforçar a má fama do trem*).

160925jj5855-fullhd
O delicioso café no trem

Nossa classe era a Super-Pullman, a melhor classe oferecida e que contava com assentos reclináveis, calefação, ar-condicionado, TV full-HD e muito mais. Mas o que começamos a aprender naquele momento é que nem todas as promessas aqui se tornam realidade, como no caso de dois tímidos ventiladores que faziam às vezes do ar-condicionado. As persianas das janelas não fechavam, então ficamos expostos ao sol em alguns trechos. Já esperávamos pelo desconforto, mas nada foi tão estranho quanto o chacoalhar do trem, parecia que estávamos em um navio singrando em um mar grosso (termo náutico para mar agitado). Tentamos encarar tal balanço como uma forma que o trem nos punha a ninar, mas não foi bem assim. Ao atravessar uma extensa planície com mata nativa se revezando com pastos, lavouras e pequenas cidades e lugarejos, lentamente o trem contava os dormentes que sustentavam os trilhos ondulados que nos impediu de ultrapassar os 53 km/h (segundo o GPS) de forma segura, sendo muitos trechos feitos pouco mais de 20 km/h. Foi então que entendi por que aquela viagem de 660 quilomêtros nos cobraria quase 17 horas, nos deixando a média de menos de 40 Km/h. Sem pressa, nossa viagem não estava restrita ao nosso destino, mas ao caminho inteiro. E assim, no vagão restaurante, pudemos saborear um delicioso café suave e que não deixa after taste como o café torrado comumente vendido no Brasil.

Dessa vez, foi vagão restaurante que nos cobrou a habilidade de equilibrista. Sempre balançando, o pires já nos foi servido com parte do café que não conseguiu ficar dentro da xícara naquela travessia de cinco metros entre a cozinha e a nossa mesa nas mãos do simpático garçom.

Apesar daquele pequeno desconforto – talvez eu esteja exigente demais – , me senti cuidado por aquela tripulação, desde o fiscal que nos orientavou no embarque que sugeriu que ocupássemos outros assentos vazios para que viajássemos mais confortavelmente ao cozinheiro que foi de passageiro em passageiro para avisar que o vagão restaurante estava funcionando e informar o cardápio.

Como entretenimento, suas TVs começaram com clipes de música como Henrique Iglesias e vários outros que não conheço e filmes com muita explosão, começando por 2012, passando por Trazan e mais outro que não sei o nome. Mas minha TV preferida era a janela no canal de paisagens.

Durante o percurso, paramos em várias cidades e vilarejos onde embarcavam e desembarcavam passageiros, ambulantes entravam para vender coisas para comer e beber, de tamarindos à quentinhas, de balas a sucos, e mais situações para guardarmos na memória.

Já naquele início, não pude deixar de me perguntar como era a vida dessas pessoas que trabalhavam no trem, longe de seus lares, levando e trazendo pessoas, carga e muitas histórias de vida que eles sequer sabem que são personagens. O trem teria se tornado seu lar?

Nossa paisagem começou a imergir na escuridão e fomos ao vagão restaurante jantar. O cardápio era lomo de rez (bife de carne bovina) ou pollo (frango) e assim, novamente precisamos de nossas habilidades de equilibrista para conseguir jantar e fortalecer o nosso corpo e serenidade para alimentar nossa alma.

Restava-nos agora dormir um pouco e esperar o próximo capítulo nessa nossa viagem para Uyuni.

*Fontes: http://mundoestranho.abril.com.br/cultura/o-que-e-o-trem-da-morte/

Parte 3, Parte 1

Rumo a Uyuni – O primeiro passo?

PARTE 1

Como se fosse o primeiro dia.

Essa viagem para Uyuni já havia começado há muito tempo em minha mente. Tudo começou com uma conversa entre amigos durante uma pizza na volta da travessia da Serra Fina, divisa dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, no ano passado.

Ainda eufóricos pelo feito, surgiu a pergunta: “Qual será o próximo desafio?”. Então, lembrei de uma amiga que havia me falado de Uyuni e ali fechamos o destino.

Depois, veio a fase de planejamento. Cada passo, cada foto, cada refeição… Tudo em uma planilha. E esse dia foi só o início de uma conversa com amigos se tornando realidade.

O que é UYUNI?

Uyuni (da lingua Aymara, significa aquele que tem uma caneta) é uma pequena cidade do Departamento de Potosi na Bolívia com pouco mais de 10 mil habitantes a beira do maior lago de sal do mundo a 3700 metros de altitude. Aqui foi a nossa base para chegar a fantásticas paisagens inimagináveis de serem vistas no Brasil.

Você deve estar se perguntando o porquê escolhemos esse desértico destino longe, inóspito, frio, seco, alto, monótono e com vários outros adjetivos.

Pois bem, escolhemos os outros adjetivos – lindo, colorido, abundante e desconhecido.

Estávamos dispostos a viver cada momento, cada paisagem, cada refeição e cada sensação que aquela planície nos proporcionaria. E não só a planície de sal, mas os desertos, lagos, cidades, caminhos e pessoas. Por isso decidimos fazer todo o caminho dentro da Bolívia por terra, dormindo em trens, conhecendo um pouco do cotidiano onde parávamos e que vocês lerão e verão fotos nas próximas semanas.

 Uyuni, aí vamos nós!

Depois de dois dias arrumando a mochila para viagem e meses planejando, ainda tinha dúvidas se havia colocado tudo que precisava nela. Se faltasse algo, que não fosse o papel higiênico.

O dia começou bem cedo no aeroporto de Brasília onde embarquei em um avião da LATAM rumo ao aeroporto de Congonhas em São Paulo para encontrar com meu velho companheiro de viagem a locais inóspitos (programa de índio), Alexandre. Mas não antes de ter a surpresa de encontrar outro amigo no aeroporto que também iria para São Paulo, para levar um cachorro para o sogro. Ultimamente o aeroporto tem sido realmente um ponto de encontro para mim.

Bem, por enquanto, tudo normal, check-in, embarque, atenção senhores passageiros, em caso de despressurização usem essa máscara fashion, acessem nosso conteúdo interativo no seu smartphone ou tablet, desde que não seja um Galaxy Note 7 senão vai explodir, tripulação preparar para decolagem e um grito. Sim, um grito ao meu lado. Minha vizinha de poltrona, a Taís, uma piauiense de Terezina que estava indo para São Paulo, onde estuda e que me contou que morre de medo de viajar de avião. A cada curva, cada movimento e cada barulho ela parava o que estava fazendo para se segurar agarrando até a poltrona da frente enquanto sua feição de pânico tomava o ambiente. Conversamos durante todo o voo para que ela se acalmasse e lhe mostrei que os barulhos são normais e que não havia o que temer durante o voo se não fosse a sua hora. Como cristã que é, creio que tenha compreendido.

Chegando no porta aviões de Congonhas ancorado no meio do mar de prédios de concreto onde cardumes de carros nadam continuamente em suas correntes, fizemos um pouso tranquilo, desembarquei de um avião para pegar outro e encontrar com o Alexandre no embarque. A partir daquele momento a viagem não era mais uma busca solitária por respostas a perguntas que ainda não foram feitas, mas um flashback de uma uma época em que jovens saiam sem rumo no mundo para conhecer pessoas e lugares e ter novas experiências para guardar na alma.

160924jj5766-1600pxNovamente era hora do embarque, dessa vez, para Campo Grande onde chegamos alguns minutos antes do esperado e por isso conseguimos pegar um ônibus na Rodoviária para Ladário as 12:30, o próximo seria só as 16:00. Mas não posso deixar de mencionar que poderíamos ter perdido o embarque dentro da rodoviária por causa de duas senhoras que estavam a nossa frente e que levaram mais de dez minutos para comprar suas passagens.

Corremos para embarcar no Andorinha (Empresa de ônibus que faz a linha), onde comemos nosso almoço, o sanduíche gourmet do Alê.

No meio do caminho, uma parada no Zero Hora em Miranda e continuamos a viagem.

Já dentro do Pantanal Sul Mato-grossense, o espetáculo do reflexo do crepúsculo nos alagados que cercavam nosso caminho, a BR-262.

Depois de oito horas de viagem surgiu a primeira pergunta. Eu aguentaria esses doze dias com há vinte anos? Acho que essa era a minha única preocupação que brotava no meio de meu entusiasmo de escrever mais essas páginas em minha vida. É nesse momento me restou a contemplação do sol vermelho que tombava atrás de nuvens que sustentavam um céu laranja. Onde está a foto? Apenas na minha mente. Dessa vez me dei ao luxo de simplesmente contemplar.

Nessa primeira tarde, o nosso caminho estava nublado, o que deixou nossas paisagens opacas e sem vividez. Acho que foi por isso que não vimos nenhum jacaré.

Primeira parada, Ladário.

160924jj6645-1600pxChegamos em Ladário-MS, no meio do Pantanal, sendo recebidos por um grande abraço de minha tia e fomos direto para a Procissão de Nossa Senhora das Mercês para depois, finalmente comer o famoso arroz carreteiro da tia Zildelene e do tio Nivaldo e rever parte da família em minha terra natal -Eu já me dava por satisfeito apenas por esse dia, mas vamos continuar.

Nesse primeiro dia começamos a nos desligar da vida agitada e fria da cidade grande, eu de Brasília e ele de São Paulo. 

Hora de dormir, pois o próximo dia duraria mais de 24 horas.

Aguarde a próxima semana para saber mais espere o post da próxima semana com dicas importantes da viagem e de fotografia.

Parte 2