Rumo a Uyuni – Oitavo dia – O Céu

“No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas.”

Aristóteles

Parte 8

Tem que sair da cama?

Sim!

O frio batia a nossa porta naquela madrugada de primavera andina, mas foi o maldito despertador que nos deu a notícia de que aquela noite de sono devia se encerrar naquele momento. Eram três da manhã e pulamos da cama. Não queríamos perder por nada o nascer do sol no meio do Salar de Uyuni. Mas dessa vez seria diferente. O sol nasceria em um espelho d’água. Continuar lendo

Rumo a Uyuni – Quinto dia – O Salar!

Parte 5

Quem poderá nos levar?

Finalmente o sol nasceu nesse dia esperado. O café da manhã tinha suco, pão, frutas, café e

160928jj6144-fullhd
Todos a bordo para o Salar. Aqui, da Avenida Ferroviária, partem os carros com turistas para dias de aventura.

ansiedade. Como planejado, não fechamos o pacote antes pela internet por que haviam vários relatos de viajantes que sugeriam que fechássemos na hora para ver com os próprios olhos o que estávamos comprando. E mesmo assim poderia não ser o que estávamos comprando.

Fomos para a avenida Ferroviária, em frente à estação de Trens e lá nos deparamos com vários turistas e carros, Toyotas Land Cruiser em sua maioria, que os levariam para vários tipos de roteiros que passam no Salar de Uyuni, deserto de Siloli, Vulcão Tupuna e outros maravilhas naturais. Nem todos os turistas voltariam ao ponto de partida, alguns ficariam em São Pedro do Atacama no Chile onde continuariam suas viagens. -Talvez na próxima vez façamos o mesmo.

Ainda na avenida Ferroviária, fomos assediados por vários agentes que vendiam pacotes turísticos para a região. O preços eram mais baixos que o que haviamos pesquisado na internet, porém, optamos por contratar os serviços da Uyuni Tours Bolívia com a Dona Antônia, pois tínhamos boas referências sobre essa empresa que prometia levar no máximo seis turistas por carro, outras empresas levam sete, o que deixa a viagem mais desconfortável do que já é. Àquela altura, com nós dois, não era possível completar um carro, então, ela nos juntou com mais três clientes de outra empresa e acabamos viajando em cinco, com muito espaço.

Indo pro sal

Eram quase 11 da manhã quando a Dona Antônia nos apresentou aos nossos companheiros de aventura nos próximos dias, a sul coreana Jiyeon Kim, os chineses Xue Qin e Zhou Sheng e nosso anjo da guarda e guia Walter e seu Land Cruiser azul, ou verde, dependia de quem olhava. Colocadas as bagagens sobre o teto do carro e protegida por lona, todos a bordo, finalmente começamos a deixar poeira para trás rumo ao cemitério de trens que estava infestado de turistas, como moscas no peixe. Confesso que aquela infestação me decepcionou um pouco. Até aquele momento, nada de mais e ainda estava em um carro com pessoas que achei que não interagiríamos nos próximos três dias no meio do nada. Me senti um turista… -Ops! Mas eu era um turista naquele momento. Tudo bem, vamos continuar…

Olha o trem

160928jj5655-ps-fullhd

Primeira parada: O Cemitério de Trens de Uyuni. Ele marca o fim de um surto de progresso boliviano e enriquecimento estrangeiro com suas riquesas (ouro, prata e estanho) entre o fim do século XIX e início do século XX. Mas, como voltaríamos aqui em três dias e sem turistas, contarei sobre esse local com mais detalhes depois.

No sal

De lá tomamos a Carreteira 30 (de asfalto) rumo ao povoado de Colchani, onde almoçamos

160928jj5676-fullhd
Feirinha de artesanato em Colchani

em uma construção feita de blocos de sal, da parede aos móveis, e compramos lembranças em uma feirinha em meio a uma paisagem desolada e que nos inquieta ao ver que ali há vida.

Agora sim, os pneus de nosso carro tocaram o sal que possuía dois recordes, o da maior planície de sal do mundo e maior reserva de lítio do mundo também, com quase 11 mil quilômetros quadrados, que seria o seu solo pelo dia inteiro. Para quem olhasse de cima, éramos apenas um ponto que se movia em uma grande folha de papel branco, deixando rabiscos pretos, até chegar ao Hotel de Sal com bandeiras e turistas do mundo todo em frente a uma escultura de sal do Dakar Bolívia. Ali, tive uma experiência surreal ao olhar com um óculos de soldador o branco infinito que toca o céu de azul profundo no horizonte. É quase indescritível, como se estivesse em outro planeta. Claro, aproveitamos para fazer as fotos engraçadas, pois éramos turistas. Partimos então para Ilha Incahuasi, que historicamente é um entreposto de descaso desde a era dos Incas no meio das rotas de no sal. Nessa ilha, pagamos um taxa de B$ 30 para entrar e fazer uso dos banheiros.

Ilha Incahuasi
Vista de cima da Isla Incahuasi

Começamos uma trilha rodeada de cactus gigantes que crescem um centímetro por ano e povoam aquele pedaço de terra cercado de sal por todos os lados. Na metade da subida, faltava ar devido a altitude, era hora de começar a me mover mais vagarosamente para não passar mal. Nessa ilha, vimos as primeiras evidência que aquele lugar já foi parte do oceano ao andar sobre recifes de coral fossilizados. Mais algumas fotos durante a subida e finalmente o cume de onde pudemos ver o horizonte rodeado de cadeias montanhosas nas bordas do lago. Na descida para o carro, encontramos algumas lhamas domésticas que posaram para foto. -Novamente, exagero meu. Elas não estavam ne aí.

Santiago Chuvica

Salar de Uyuni
Extração de sal

Partimos sobre a estrada pintada com o preto da borracha do desgaste dos pneus sobre o duro sal que ia até o povoado de Chuvica na borda do Salar. Cada vez que olhavamos para o chão de sal, ele estava com uma textura diferente, hora com desenhos geométricos em alto relevo, hora como uma lixa e hora formando padrões em baixo relevo. Em Santiago de Chuvica, deixamos nossa bagagem no quarto do hotel de sal e voltamos ao Salar para ver o por do sol. Nem preciso dizer que espetáculo a natureza nos proporcionou com aquela tênue luz que caia além do horizonte perto das montanhas que represavam aquela sal em que estávamos em pé. Naquele momento, silêncio, paz e sal temperavam aquele crepúsculo que pudemos vivenciar intimamente com a natureza. “Veja as fotos no final do texto”.

Em geral, os pacotes oferecem hospedagem em alojamentos (quartos para seis pessoas)

160929jj6194-fullhd
Quarto com banheiro privado no hotel de sal

com banheiros coletivos. Ainda em Uyuni, por um pequeno acréscimo, pegamos um quarto duplo com banheiro privativo. No hotel, como sempre, fomos bem servidos pelo nosso guia Walter. Uma sopa deliciosa de entrada, carne, legumes, arroz, refrigerante, chá… sim, também havia chá de coca para ajudar amenizar o mal de altitude (soroche) para quem precisasse. -Em breve falarei mais sobre ele, pois é claro que experimentei, os dois, o mal de altitude e o chá de coca.

Que a noite caia!

O sol já havia se posto depois de contemplá-lo e fotografá-lo caindo além de onde nossos olhos podiam enxergar a nossa preocupação agora era tomar um bom banho quente, apesar de não estar muito frio para o local, algo em torno de cinco graus naquele momento e baixando conforme a noite nos roubava o calor. Àquela altura, nada melhor que o banho para tirar a poeira e o sal do corpo, colocar roupas limpas e deitar sob várias mantas para

160928jj6175-ps-fullhd
Pintando a Via Lactea no céu

não passar frio durante a madrugada… só que não resisti, chamei o Alexandre, que é a única pessoa que conheço que nunca se nega a fazer esses programas de índio, e o nosso novo amigo chinês Zhou Sheng para ver as estrelas e fotografar a escuridão. Cruzamos o frio e a escuridão para chegar no sal, pois onde estávamos ainda era solo firme. Mas, depois de andar por dez minutos, chegamos em um terreno que ainda havia alguma vegetação, que só soubemos no dia seguinte que era frequentado por pumas andinos, e preferimos não arriscar em chegar ao sal, talvez da próxima vez. Montamos nossa base e comecei a ensinar o Alexandre a essência da fotografia noturna. Agora era ele que pisava em terreno estranho, escuro e desconhecido. Entre astrofotografias e lightpainting, conversávamos sobre a vida e sobre a viagem com o nosso amigo Zhou. Mas não podíamos virar a noite ali, nossos corpos pediam descanso para o próximo dia e que as nossas almas não queriam conceder. Alvorada marcada para 5:30, hora de deitar e até a próxima página dessa história.

Parte 4 Parte 6

Rumo a Uyuni – Quarto dia – Sobre as águas

“Não existe um caminho para a felicidade.

A felicidade é o caminho.”

Thich Nhat Hanh

Parte 4

De Cochabamba à Uyuni

Amanheciamos o último dia da nossa jornada de ida. Só esses quatro dias já valem uma Ônibus de Cochabamba para Oruroaventura. O sol ainda não havia saído detrás das montanhas e já caminhávamos para a rodoviária com um pouco de antecedência para tomar o café da manhã conhecer um colombiano que junto com seu cachorrinho de estimação viajava a América Latina e tomar mais um chá de coca para evitar o soroche. -A essa altura “altitude se encaixaria melhor”, já não tomávamos café e sim o chá de coca.

4453 metros de altitude no caminhoPartindo de Cochabamba, passamos quatro horas no Trans Azul atravessando, subindo e descendo serras, na maioria das vezes acima dos 4000 metros de altitude. Naquele ponto, o Alexandre já se incomodava com o soroche, também conhecido por mal da altitude. Quanto mais subiamos, menos árvores. A paisagem foi perdendo rapidamente o verde para predominar o ocre. Ao chegar na pequena rodoviária de Oruro, mas não menos organizada, apanhamos um táxi (perua Toyota descartada no Japão e volante transplantado da direita para esquerda, muito comum na Bolívia) rumo a estação de trem para comprar os bilhetes e almoçar naquela cidade geométrica e monótona feita de tijolos cozidos como nas favelas brasileiras. Fomos recebidos por um sorridente e solícito atendente na estação que que nos vendeu os bilhetes e recebeu a bagagem em uma sala grande com móveis de madeira maciça e paredes revestidas pela mesma madeira. Me senti nos anos 50.

O almoço foi quase em frente à estação no melhor restaurante da cidade. Me senti rico. Na Bolívia o poder de compra de nossa moeda é muito maior. Pedi cordeiro e, novamente, os pratos foram muito bem servidos a ponto de eu não conseguir comer tudo. Já estava começando a achar que ou o meu estômago era pequeno ou o estômago dos bolivianos era grande.

Todos a bordo, pois o trem já vai partir

Expresso del Sur14 horas e todos a bordo do trem Expresso del Sur da Ferroviária Andina para Uyuni. Finalmente o último trecho que já no início nos brindou com o lago Uru Uru por onde o trem contou caminho sobre as águas em meio a bandos de flamingos andinos e chilenos. Houve um pouco de alvoroço naquele vagão cheio de alemães em virtude da bela paisagem que víamos e éramos parte. Logo, o lago foi substituído pelo altiplano com campos áridos, pastagens e plantações, os flamingos pelo gado e nossa euforia pelo sono do cansaço naquele fim de tarde.

O trem era mais conservado do que o pegamos em Puerto Quijarro. As janelas e persianas abriam, haviam tomadas no vagão de passageiros, Flamingos Andinos no lago Uhu Uhuos bilheteiros eram bem uniformizados, o vagão restaurante era melhor e possuia uma tomada por mesa para recarregar os celulares e o trem balançava menos.

Finalmente! Já era noite quando chegamos à estação de Uyuni e só nos restou buscar um lugar para dormir, novamente através do App de mapas off-line que também mostrava a nota atribuída por outros usuários ao estabelecimento.

Agora, era descansar para o tão esperado início da aventura. -Como se chegar até aqui já não fosse. 

Parte 3Parte 5

Rumo a Uyuni – Segundo dia – a mão que balança o trem.

Parte 2

deixando a zona de conforto

De volta a nossa epopéia rumo ao “Novo Mundo”…

14542365_1148726845197916_1510454001869973788_o
Um dos próximos destinos, a Laguna Verde. Foto: Alexandre Camargo

– Tá bom, exagerei. Vamos voltar à realidade.

A alvorada foi regada de ansiedade na pacata cidade de Ladário-MS, não que tenha acontecido algo extraordinário, mas por que começávamos a nós sentir livre das correntes cotidianas e que a nossa existência nos próximos dias dependeria apenas de nós.

Antes de partir do Brasil, durante o café da manhã com chipa e saltenha, conhecemos algo que deve deixar qualquer gaúcho confuso, no mínimo. O refrigerante de chimarrão.

160925jj5820-fullhd
Meu amigo Marco Pollo, o Frango Viajante

E claro, fui visitar meus parentes e dar uma volta na minha cidade natal.

Ainda pela manhã, atravessamos a fronteira de Corumbá (Brasil) para Puerto Quijarro (Bolívia), onde passamos pela imigração, tanto a brasileira quanto a boliviana, uma para dar saída do Brasil e outra para dar a entrada na Bolívia. Apesar da Bolívia ser um país associado ao Mercosul e poder usar a identidade, sugiro que levem o passaporte caso queiram se aventurar em terras bolivianas, pois em todas as nossas

160925jj4891-fullhd
A primeira Paceña da viagem

hospedagens e compras de passagem, nos pediram o passaporte. A partir desse momento passamos a explorar novos campos onde muitas coisas eram novidade. A aparência caótica daquele trecho de estabelecimentos comerciais competindo com o comércio de rua, a venda de bebidas refrescantes por ambulantes, como limonada, chicha e uma outra feita de canela com um pêssego dentro chamada mucochicho. Ainda não éramos bolivianos – e nem conseguiríamos com nossas feições de turistas naquele local – mas já marcávamos a nossa chegada em terras bolivianas degustando um fruto de sua terra, a cerveja Paceña, uma pilsener premiado mundialmente em vários concursos mundiais e fabricada pela Cervecería Boliviana Nacional.

Junto a meus tios, partimos rumo à estação ferroviária para comprar nossos bilhetes, passando por um asfalto com tanta terra em cima que pouco diferia de uma estrada de terra bem batida.

O TREM, NÃO É MAIS DA MORTE

Chegada a hora, nos despedimos e embarcamos rumo à Santa Cruz de lá Sierra no Expresso Oriental em Puerto Quijarro. Hoje, apelidado de Trem do Progresso, já foi conhecido por Trem da Morte (O apelido nasceu no século passado, quando a composição era usada para transportar leprosos, doentes e corpos das vítimas de uma grave epidemia de febre amarela que se abateu sobre a região de Santa Cruz. Além disso, naquela época, a ferrovia não estava em suas melhores condições e descarrilamentos eram comuns, o que contribuiu para reforçar a má fama do trem*).

160925jj5855-fullhd
O delicioso café no trem

Nossa classe era a Super-Pullman, a melhor classe oferecida e que contava com assentos reclináveis, calefação, ar-condicionado, TV full-HD e muito mais. Mas o que começamos a aprender naquele momento é que nem todas as promessas aqui se tornam realidade, como no caso de dois tímidos ventiladores que faziam às vezes do ar-condicionado. As persianas das janelas não fechavam, então ficamos expostos ao sol em alguns trechos. Já esperávamos pelo desconforto, mas nada foi tão estranho quanto o chacoalhar do trem, parecia que estávamos em um navio singrando em um mar grosso (termo náutico para mar agitado). Tentamos encarar tal balanço como uma forma que o trem nos punha a ninar, mas não foi bem assim. Ao atravessar uma extensa planície com mata nativa se revezando com pastos, lavouras e pequenas cidades e lugarejos, lentamente o trem contava os dormentes que sustentavam os trilhos ondulados que nos impediu de ultrapassar os 53 km/h (segundo o GPS) de forma segura, sendo muitos trechos feitos pouco mais de 20 km/h. Foi então que entendi por que aquela viagem de 660 quilomêtros nos cobraria quase 17 horas, nos deixando a média de menos de 40 Km/h. Sem pressa, nossa viagem não estava restrita ao nosso destino, mas ao caminho inteiro. E assim, no vagão restaurante, pudemos saborear um delicioso café suave e que não deixa after taste como o café torrado comumente vendido no Brasil.

Dessa vez, foi vagão restaurante que nos cobrou a habilidade de equilibrista. Sempre balançando, o pires já nos foi servido com parte do café que não conseguiu ficar dentro da xícara naquela travessia de cinco metros entre a cozinha e a nossa mesa nas mãos do simpático garçom.

Apesar daquele pequeno desconforto – talvez eu esteja exigente demais – , me senti cuidado por aquela tripulação, desde o fiscal que nos orientavou no embarque que sugeriu que ocupássemos outros assentos vazios para que viajássemos mais confortavelmente ao cozinheiro que foi de passageiro em passageiro para avisar que o vagão restaurante estava funcionando e informar o cardápio.

Como entretenimento, suas TVs começaram com clipes de música como Henrique Iglesias e vários outros que não conheço e filmes com muita explosão, começando por 2012, passando por Trazan e mais outro que não sei o nome. Mas minha TV preferida era a janela no canal de paisagens.

Durante o percurso, paramos em várias cidades e vilarejos onde embarcavam e desembarcavam passageiros, ambulantes entravam para vender coisas para comer e beber, de tamarindos à quentinhas, de balas a sucos, e mais situações para guardarmos na memória.

Já naquele início, não pude deixar de me perguntar como era a vida dessas pessoas que trabalhavam no trem, longe de seus lares, levando e trazendo pessoas, carga e muitas histórias de vida que eles sequer sabem que são personagens. O trem teria se tornado seu lar?

Nossa paisagem começou a imergir na escuridão e fomos ao vagão restaurante jantar. O cardápio era lomo de rez (bife de carne bovina) ou pollo (frango) e assim, novamente precisamos de nossas habilidades de equilibrista para conseguir jantar e fortalecer o nosso corpo e serenidade para alimentar nossa alma.

Restava-nos agora dormir um pouco e esperar o próximo capítulo nessa nossa viagem para Uyuni.

*Fontes: http://mundoestranho.abril.com.br/cultura/o-que-e-o-trem-da-morte/

Parte 3, Parte 1