Rumo a Uyuni – Sétimo dia – Vermelho

 Parte 7

“Os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde; Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro; Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido.”
― Buda

Banho?

160930jj6697-fullhdAinda era madrugada quando o despertador interrompeu o nosso sono. Cara de sono e falta
de coragem para levantar e tomar banho naquela fria e escura madrugada. -Alguém cogitou em banho por aqui às cinco da manhã? Não me lembro.- Então, todos se levantaram, se agasalharam, arrumaram o quarto colocando a bagunça dentro das mochilas -Cada um que leve sua bagunça.-, e foram ter o seu único contato com água para higiene na escovação dos dentes. Naquele momento, já não éramos mais apenas um ponto de luz sustentada por baterias no meio das trevas do Altiplano Boliviano, o sol raiara. Ao lado do alojamento, no restaurante, fazíamos a primeira refeição do dia e obviamente degustávamos mais chá de coca para ter disposição.
Walter, o nosso guia, acordou mais cedo. Preparar nosso café da manhã com tudo que tínhamos direito depois ele aprontou o carro. Terminado o “desayuno” (café-da-manhã), partimos para a Laguna Colorada.

Vermelho

Embarcamos no carro, junto com nossas mochilas e expectativas. Para trás, deixamos apenas a poeira que não nos permitia mais ver o alojamento no interior da Reserva 160930jj6914-fullhdNacional de Fauna Andina – Eduardo Avaroa na Bolívia e perto da fronteira com o Chile. O caminho foi curto dessa vez. A Laguna era bem perto. Ao chegar, não sei precisar bem, mas centenas de flamingos nos esperavam… -Não, não nos esperavam. Fomos sem avisar.- Eles estavam em sua busca diária por alimento naquela laguna de salmoura tingida de vermelho por um tipo de alga que vive em água salgada e que é o alimento que atrai uma grande quantidade de flamingos para esse local.- Nessa hora, descemos o barranco para ficar mais perto da beira do lago cheio de flamingos, ilhas de sal (borax) e alimentado por águas quentes de nascentes a poucos metros de sua margem. Enquanto uns caminhavam solitariamente em Flamingos.meditação, outros, eufóricos, fotografavam tudo o que viam no começo, mas aos poucos a percepção do comportamento dos flamingos foi crescendo e permitindo-nos prever algumas cenas que poderíamos fotografar. Uma das cenas mais interessantes naquele lago raso era a corrida de decolagem dos pássaros e o voo baixo, quase rente a água, se comparado aos voos que testemunhamos no lago Uro-Uro (ver Rumo a Uyuni 4 – Sobre as águas). Cenas essas que fascinaram o Alexandre, que diga-se de passagem, fazia fotos cada vez melhores a cada dia que passava apenas com as conversas sobre a essência da fotografia e de como escolher o que fotografar.
Infelizmente não podíamos passar o dia inteiro lá, era hora de embarcar para nosso regresso a Uyuni, mas não sem antes passar mais uma vez pelo deserto de Siloli…

Salvador Dalí esteve aqui?

Fotógrafo sendo fotografado no Arbol de PiedraNesse árido deserto, considerado parte do deserto de Atacama, passamos por várias formações rochosas, mas a que mais chamou nossa atenção foi um monólito natural de formação geomórfica por erosão causada pelo vento forte da região – traduzindo: uma pedra interessante de se ver.-, o Arbol de Piedra (Árvore de Pedra). Mais uma vez, paramos para fotografar, caminhar e pensar na vida. Aqui, nosso guia Walter nos fez uma observação: “Aqui não há nada, não há plantas, não há animais, só há turistas…” Eu completo, há inspiração, tanto que se diz que as esculturas naturais de pedra inspiraram o artista surrealista Salvador Dalí.

poeta12Assim como na pintura “A persistência da memória”de Salvador Dalí, o tempo não estava
a nosso favor, os ponteiros do relógio giravam cada vez mais rápido. Não queríamos que aquele dia chegasse ao fim. Mas era hora de partir. Embarcamos e mais uma vez cruzamos o deserto levantando poeira, enfrentamos mais uma vez aquele chão, cruzamos com ciclistas, poeira e paisagens até o momento que Walter nos mostrou uma surpresa que havia nos reservado, a Laguna Negra, onde paramos para almoçar.

Quem sou eu?

160930jj6315-fullhdMas o que menos interessava era o almoço, de um lado, aquela laguna, diferente de todas as que vimos, no fundo de um vale, com um pequeno rebanho de lhamas e sua água escura, era a Laguna Negra. Walter nos disse que diferente das outras que são rasas e salgadas, essa era doce e profunda, chegando a 100 metros. Do outro lado, uma formação rochosa com viscachas (pronuncia-se viscátias) e turistas. Para quem não sabe, viscachas são 160930jj6570-fullhdroedores da família da chinchila que bebem a própria urina devido à aridez da região. -Esses são realmente sobreviventes aqui. Você faria o mesmo?-. Durante e após o almoço, veio um momento de reflexão em uma conversa que tive com a Kim. -Para quem não sabe, ela é sul coreana e se prepara para ser monge budista. Leia Rumo a Uyuni 5 – O Salar.- Começamos falando da viagem, o encontro de desconhecidos que passaram a ser os melhores amigos naqueles dias, nos estendemos no tempo e espaço até chegar a principal pergunta que você deve se fazer: Quem sou? -Não imaginava, mas sob a percepção budista é difícil responder a essa pergunta. Para nós ocidentais, a resposta é mais fácil ,pois não vem do íntimo, mas do estereótipo visível, como situação social, aparência… Mas para ela, na sua crença, é preciso um mergulho mais profundo para buscar essa resposta. Então, vamos deixar para falar isso outro dia, pois ainda não encontrei a resposta.-

Melancolia

Walter nos chamou. Era hora de ir. Cada vez mais a vontade de ficar apertava o coração.160930jj7523-fullhdPor que voltar? Aqui era o presente. No meio do nada, eu estava feliz. Todos a bordo e deixamos aquela laguna no passado ao subirmos em uma estrada de terra (carreteira 701) e depois a asfaltada carreteira 5. O deserto ficou para trás. Melancólicos, percebíamos os efeitos do cansaço enquanto verdes arbustos começavam a nos ladear. Paramos para as lhamas atravessarem a estrada, algumas vicunhas surgiam no caminho e cruzamos com poucos carros. Uma tristeza pairava sobre nós. Já havia saudosismo daqueles dias ao pensarmos no futuro. Qin e Zhou (os chineses) ainda ficariam em Uyuni, assim como eu e Alexandre, mas Kin (a sul coreana), tinha um voo marcado para aquela noite para o Peru.

O Show não pode acabar

Foi quando Walter interveio e sugeriu que poderíamos aproveitar o dia seguinte fazendo o 160930jj7620-fullhdtour das estrelas. -Como assim? Pegar uma nave espacial e viajar para lá?- Em um tour privado que vai para uma área alagada do Salar onde se pode ver o céu estrelado refletido na água. Nosso ânimo voltou!!!
Chegamos em Uyuni no fim da tarde, cansados, sujos e ricos de experiências. Momento de nos despedirmos de Kim e combinar o passeio do próximo dia, ou melhor, madrugada, com Zhou e Qin, fechar o pacote com a agência de turismo, voltar para o hotel … para limpar o corpo, pois a alma eu queria que continuasse impregnada com todas aquelas experiências, e dar uma volta na cidade a noite e tomar uma Huari (cerveja local) e jantar com nossos amigos.

Nossa aventura fica por aqui, hora de dormir (para nós), pois os próximo post começará as quatro da manhã o 4×4 nos levando à um local que poderemos ver as estrelas em um espelho d’água. Enquanto isso, veja as fotos que eu e Alexandre fizemos no sétimo dia.

Depois dessa viagem, Alexandre disse:

“Minha paixão por fotografia começou quando pela primeira vez utilizei minha DSLR Nikon D3100 (até então só havia fotografado com minha Casio Digital!!!) na travessia da Serra Fina. Eu não sabia NADA sobre técnicas de fotografia, somente utilizava o seletor de fotos pré-definidas da própria câmera! rs

Foi então que meu amigo e fotógrafo Johnson me ensinou algumas dicas sobre ISO, abertura e exposição, me incentivando a usar os modos manuais da máquina.
No retorno da travessia, as fotos ficaram muito melhores e achei o máximo! Meu equipamento é bem simples: uma lente 18-55mm com VR e uma lente 70-300mm totalmente manual. Vale lembrar que minha Nikon D3100 é uma câmera de entrada!
Mas foi na travessia do deserto que a evolução foi assustadora. Como escolhemos viajar por terra (trem e ônibus), aproveitei os longos percursos para aprender com o Johnson o máximo possível: modos de foco, abertura, exposição, enquadramento, uso de polarizador, cuidados ao substituir as lentes, balanço de brancos, compensação de exposição, e lógico… fazer fotos em alta qualidade (RAW).
Durante as fotos, não cansava de pedir ajuda, dicas, socorro… rs
E na volta da viagem, revelar as fotos utilizando o adobe lightroom foi uma experiência incrível!!! As fotos ficaram muito, muito boas mesmo!!!

Acredito que o segredo dessa evolução foi a forma com que venho aprendendo a fotografar: na prática, de forma leve, inspiradora, focando naquilo que eu quero mostrar, e não nas técnicas e regras básicas de fotografia. Eu jamais conseguiria ficar por mais de 15 minutos em uma sala de aula aprendendo sobre fotografia… eu nem mesmo tive paciência para ler o manual da câmera! Mas fotografando, errando, testando e acertando, hoje consigo até mesmo fotografar um cenário noturno, mostrando aquilo que vejo com minha própria perspectiva.

Valeu brother!!! Hoje eu adoro fotografar!!!!!!!”

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Rumo a Uyuni – Sexto dia – O deserto

Parte 6

O despertar

Em nosso segundo dia nos Altiplanos Bolivianos, o silêncio da noite fria e escura a borda do salar de Uyuni, em nosso Hostel, foi quebrada pelo barulho irritante do despertador do celular que foi recebido com alegria. Hora de levantar para mais um grande dia no meio do que muitos chamariam de nada, o Deserto de Siloli.
Não tinhamos tempo a perder. Levantar, lavar o rosto e escovar os dentes, guardar tudo nas mochilas e ir para o restaurante do hostel tomar o café da manhã que estava marcado para 5:30. Cereis, iogurte, suco, geléia, sono, café, leite, frutas e aquele pão redondo que em nada lembra o nosso pãozinho francês. -Talves seja por isso que ganhei um quilinho a mais.-
6:00, todos a bordo para partirmos do hostel de Sal em Santiago de Chuvica rumo à Laguna Verde através do Deserto de Siloli.

Mar adentro

Pegamos uma estrada de terra que se alternava com borax que beirava a montanha que se erguia a borda daquele lago de sal enquanto o sol nascia. Cruzamos plantações de quinua ladeadas de encostas salpicadas com tumbas incas. O céu era de um azul limpo e profundo. Nenhuma nuvem nos ameaçava.

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Nas montanhas, a marca deixada pelo mar.
Naquele momento, um detalhe que muito nos chamou atenção foi a divisa na montanha que mostrava até onde o mar, outrora, encostou e deixou seu rastro para os CSI da história natural através corais fossilizados.
Nossa primeira parada foi no Salar de Tiguana, que é um lago de borax (borato de sódio, usado desde tratamento termoquímico e fabricação de vidros óptico a fertilizantes e conservante de caviar). Descemos e notamos que aquele sal não era duro como o do Salar de uyuni, mas bem fofo. E por isso o nosso Anjo da Guarda e guia diminuiu a pressão do pneu do carro (parar e calibrar o pneu era algo constante).
160929jj6303-fullhdProsseguimos e passamos pelo povoado de Julaca no cruzamento da linha férrea com a estrada, com algumas poucas casas erigidas com parede de adobe e telhados de zinco ou de palha no meio daquela poeira. Vimos circulando nas ruas mais lhamas domésticas que pessoas. Segundo nosso guia, ali, só viviam sete famílias e que as cores dos enfeites das lhamas se referiam a cada família.

Há vida e pedra no deserto

8:30 passamos por uma estância chamada Chackha e paramos para fotografar as lhamas.

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O olhar curioso de uma lhama analisando um ser estranho a sua frente, eu.

Nos foi recomendado para não chegar perto, pois elas cospem. -Obviamente eu não levei essa recomendação em consideração e cheguei perto. Por sorte e perícia de principiante, consegui fotografá-la sem tomar uma cuspida.- Essa Estância fica em um vale verde e alagado, onde cresce uma grama verde escura no meio do marrom desértico. Um verdadeiro oásis sem palmeiras. -Por falar em árvore, já eram dois dias sem ver uma única árvore.-

Seguindo a estrada, passamos por Las Rocas que é uma área de uns 30 quilômetros quadrados formado pelo de rochas originadas do derramamento vulcânico. Aquele tapete de rochas abriu caminho para passarmos naquilo que parecia impenetrável.
Apesar do cansaço, os olhos não fechavam, não queríamos perder uma cena da paisagem nos campos de altitude, vales, desertos e montanhas. Avestruzes selvagens, palha brava, vicunhas, terra e poeira entraram para nossa memória. Durante essa travessia, Alexandre conversou muito com o Walter em espanhol e depois nos contava o que havia conversado em inglês para que Xue Quin, Zhou Sheng e Jiyeon Kim entendessem. -Quer saber quem são esses? Então clique aqui e leia o capítulo anterior.-
Naquele trecho entre Julaca e Alota, o GPS nos disse que passamos por Uchisa e San Agostin, mas só o que vi foram campos de altitude salpicados de palha brava. Essa palha também é usada para fazer os telhados de muitas casas por aqui. Depois dali, ainda passamos pela Vilamar Mallcu, onde havia uma cancela e pediram nossos documento. -Me senti naqueles filmes em que o protagonista tenta cruzar a fronteira antes que os bandidos cheguem.-
Seguindo em frente, mais um salar, o Salar Capina, novamente com borax. Esse, se não prestássemos atenção, parecia ser apenas uma terra bem clara de longe. Por várias160929jj6531-fullhd vezes, Walter, o nosso guia, nos falou sobre a extração de diversos elementos dos salares da região eram a fonte de riquezas. Ali, havia atividade mineradora, mas parecia que estava abandonado, como o cemitério de trens. Naquele momento, os equipamentos estavam mortos, sem o sopro de vida de alguém que o faz se mexer, exceto de um trator que removia as pedras da estrada feita de terra e sal e que nós passaríamos depois que a máquina terminasse de deixar seu rastro.
Além do borax, disse Walter, também há extração de magnésio, potássio e principalmente de lítio (O Salar de Uyuni possuia a maior reserva do mundo, de 50% a 70% da reserva mundial).
Dentro ainda desse Salar, fica o posto da entrada da Reserva Nacional da Fauna Andina Edurado Avaroa onde pagamos a entrada B$ 150,00 (cento e cinquenta pesos boliviananos, que o que equivalia naquele dia a R$ 75,00) que nos dava direito a trafegar pelo parque e dormir em um alojamento próximo a Laguna Colorada.

Para o alto e avante!

Agora, estávamos dentro da Reserva, havíamos saído da confortável zona dos dos 3700

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Uma das muitas paradas para calibrar o pneu do carro.

metros de altitude do Salar de Uyuini e ultrapassamos os quatro mil. Só subíamos, subíamos e subíamos. A essa altura, altitude, para ser mais exato, até o motor 4.0 de seis cilindros a gasolina da Land Cruiser que estávamos sofria com falta de ar. Apesar daquele ser um motor potente ao nível do mar, ali ele se comportava como um carro 1.0 brasileiro. Por várias vezes, Walter abria o capô do carro para o motor esfriar durante nossas paradas. O radiador também é menos eficiente no ar rarefeito, apesar do frio. -Se o carro sofria, por que não sofreríamos?- Walter comentou que os carros com motor V8 sofrem menos para enfrentar esse terreno que cruzamos.

Onde estará o chá de coca?

E foi a partir dos 4000 metros a memória começou a falhar. Chegamos até os 4900 e fui pego pego pelo mal de altitude -O tal do soroche.-, com dor de cabeça, confusão mental e só mesmo um chá de coca para aliviar.

Depois de um tempo, que não lembro bem, finalmente a tão esperada parada em um restaurante. -Não para almoçar, mas para tomar meu chá de coca.-

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Parada para o chá nas termas de Polques.
-Pronto!- Depois de tomar uma xícara de chá, meu cérebro voltara a registrar o mundo que me rodeava. -Bom… Agora vamos à descrição do lugar.- Era a beira de um lago de salmoura com ilhas de sal e na beira havia uma piscina de água quente no meio daquele frio de doer de fim de inverno a quase cinco mil metros de altitude. Um restaurante pequenino e um banheiro mal cheiroso com aqueles sanitários que são um buraco no chão onde suas necessidades caem em um tambor abaixo do chão. -Eca! E ainda paguei para isso.- Hora do almoço para recobrar as energias e descansar. -Continuo não lembrando o que comi, acho que o chá não havia feito efeito.- Aqui, não me preocupei em fotografar, apenas em relaxar na piscina de água quentinha onde conhecemos dois holandeses -Eram holandeses mesmo? Como disse, minha memória me deixou na mão-. Estava muito bom descansar naquela piscina, mas como aquele famoso ditado: Depois da bonanza, vem a tempestade. No nosso caso era depois da água quentinha a 40 graus celcius, vem um puta dum frio até chegar no vestiário para tomar um banho para tirar o sal do corpo e vestir a roupa. Pronto! Sacrifício feito, dentro da roupa e todos a bordo do Walter Móvel. -E só depois que fui descobri que o nome desse lugar era Terma de Polques à beira do Lago Chaviri.-

O deserto é colorido!

Agora, atravessando o Deserto de Siloli, estávamos dentro do Reserva e a nossa próxima parada seria a Laguna Verde, mas não sem antes ver as cores do Deserto de Salvador Dali. Ali, Tons e sobre tons marcaram a nossa visão. Não imaginava que uma criação natural

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Obras de arte feitas pela natureza.

pudesse se assemelhar tanto à uma obra de arte feita de terra. Além da beleza das cores, rochas isoladas remanescentes de explosões vulcânica, pois a região tem muitos, compunham a paisagem.

Acho que foi essa hora que vi o Alexandre mais eufórico com a paisagem. Ele se emocionou ao ver as cores do deserto e acho que se você leu até aqui, tem que ver as fotos dele.
Mas o ar rarefeito estava começando a cobrar seu pedágio. Já estava difícil de respirar. Mas… Vamos em frente.

Laguna Verde

Finalmente chegamos naquelas lagunas salinos ao pé do vulcão inativo Licancabur na

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Laguna Verde.

divisa com o Chile, a Verde e a Blanca. Aqueles duas originadas da água retida do oceanos e que hoje está a mais de 4300 metros de altitude, tem características bem distintas e interessantes apesar da proximidade. Uma, com uma superfície praticamente coberta por sal branco. A outra, líquida, tem uma coloração que vai do turquesa ao esmeralda, dependendo da incidência da luz do sol e da interferência do vento em sua superfície, por causa da sua grande concentração de arsênio em suspensão e outros minerais.-Por isso, não ousamos beber daquela água.- Nos disseram que essa lagoa era estéril, mas para nossa surpresa, vimos alguns flamingos em suas águas. -Seriam flamingos suicidas?-

Não ficamos muito tempo ali. Ainda havia muita poeira para aquele dia e partimos.

No Geiser.

160929jj6679-fullhdEra fim de tarde e fomos para o Sol de Mañana, um campo geotermal com caldeirões de lama borbulhantes e válvulas por onde aquele chão de rocha aliviava sua pressão. Essa novidade fascinou o olhar de nós dois, brasileros. -No Brasil não tem.- Em algumas das crateras, além do vapor, cores chamavam a atenção. Aquele mingau borbulhante era rodeado de crosta amarela com cheiro de enxofre.

Vamos pro hotel?

Saímos para uma longa travessia no deserto até chegar ao alojamento um pouco antes de anoitecer e o efeito do chá de coca acabou no caminho.
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Chegando no hotel.

Chegamos ao hotel perto do cair da noite. Um hotel não é de sal. Nem é hotel. É um alojamento que fica dentro do parque e o seu uso está incluso no ingresso do parque. Os quartos são para seis pessoas. As camas eram feitas de alvenaria. Baterias sustentavam a energia elétrica e havia apenas uma tomada disponível com muitas extensões, tês e gatos para os turistas recarregarem suas baterias de câmera, celular e qualquer outra coisa. Porém, havia horário de energia. Restava-nos esperar a hora da luz para carregar tudo.

Novamente, eu não estava nem um pouco a fim de fotografar, eu só queria jantar, tomar um chá de coca e dormir. Estávamos tão cansados que nem tomamos o vinho que Walter trouxe para nós. A cerveja que Zhou comprou não desceu muito bem. Era a altitude nos mandando descansar. -Ou descer mesmo.- Então, fui tomar meu chá de coca, jantar, por as baterias para carregar e ser feliz. Mas não sem antes explicar para Jiyeon Kin como a câmera dela funciona e mostrar para ela como fotografar estrelas.
O banho foi de gato, era impossível tomar banho ali. Fazia frio e o o chuveiro coletivo não esquentava fora do horário, então, quando havia energia, havia fila.
Walter cobriu o motor com a lona das bagagens por causa das quedas bruscas de temperatura no período da noite que podem chegar a -25ºC.
Esperávamos passar frio a noite. Mas como tinha cinco cobertores para cada, nem precisei usar o saco de dormir que a Dona Antônia me emprestou Naquela noite, passamos calor.
Esse momento marcava exatamente a metade da viagem de 12 dias. A beleza exótica do lugar já havia capturado a nossa vontade de retornar. -Se você leu até aqui, até a próxima parte do diário da viagem.-

Parte 5

Rumo a Uyuni – O primeiro passo?

PARTE 1

Como se fosse o primeiro dia.

Essa viagem para Uyuni já havia começado há muito tempo em minha mente. Tudo começou com uma conversa entre amigos durante uma pizza na volta da travessia da Serra Fina, divisa dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, no ano passado.

Ainda eufóricos pelo feito, surgiu a pergunta: “Qual será o próximo desafio?”. Então, lembrei de uma amiga que havia me falado de Uyuni e ali fechamos o destino.

Depois, veio a fase de planejamento. Cada passo, cada foto, cada refeição… Tudo em uma planilha. E esse dia foi só o início de uma conversa com amigos se tornando realidade.

O que é UYUNI?

Uyuni (da lingua Aymara, significa aquele que tem uma caneta) é uma pequena cidade do Departamento de Potosi na Bolívia com pouco mais de 10 mil habitantes a beira do maior lago de sal do mundo a 3700 metros de altitude. Aqui foi a nossa base para chegar a fantásticas paisagens inimagináveis de serem vistas no Brasil.

Você deve estar se perguntando o porquê escolhemos esse desértico destino longe, inóspito, frio, seco, alto, monótono e com vários outros adjetivos.

Pois bem, escolhemos os outros adjetivos – lindo, colorido, abundante e desconhecido.

Estávamos dispostos a viver cada momento, cada paisagem, cada refeição e cada sensação que aquela planície nos proporcionaria. E não só a planície de sal, mas os desertos, lagos, cidades, caminhos e pessoas. Por isso decidimos fazer todo o caminho dentro da Bolívia por terra, dormindo em trens, conhecendo um pouco do cotidiano onde parávamos e que vocês lerão e verão fotos nas próximas semanas.

 Uyuni, aí vamos nós!

Depois de dois dias arrumando a mochila para viagem e meses planejando, ainda tinha dúvidas se havia colocado tudo que precisava nela. Se faltasse algo, que não fosse o papel higiênico.

O dia começou bem cedo no aeroporto de Brasília onde embarquei em um avião da LATAM rumo ao aeroporto de Congonhas em São Paulo para encontrar com meu velho companheiro de viagem a locais inóspitos (programa de índio), Alexandre. Mas não antes de ter a surpresa de encontrar outro amigo no aeroporto que também iria para São Paulo, para levar um cachorro para o sogro. Ultimamente o aeroporto tem sido realmente um ponto de encontro para mim.

Bem, por enquanto, tudo normal, check-in, embarque, atenção senhores passageiros, em caso de despressurização usem essa máscara fashion, acessem nosso conteúdo interativo no seu smartphone ou tablet, desde que não seja um Galaxy Note 7 senão vai explodir, tripulação preparar para decolagem e um grito. Sim, um grito ao meu lado. Minha vizinha de poltrona, a Taís, uma piauiense de Terezina que estava indo para São Paulo, onde estuda e que me contou que morre de medo de viajar de avião. A cada curva, cada movimento e cada barulho ela parava o que estava fazendo para se segurar agarrando até a poltrona da frente enquanto sua feição de pânico tomava o ambiente. Conversamos durante todo o voo para que ela se acalmasse e lhe mostrei que os barulhos são normais e que não havia o que temer durante o voo se não fosse a sua hora. Como cristã que é, creio que tenha compreendido.

Chegando no porta aviões de Congonhas ancorado no meio do mar de prédios de concreto onde cardumes de carros nadam continuamente em suas correntes, fizemos um pouso tranquilo, desembarquei de um avião para pegar outro e encontrar com o Alexandre no embarque. A partir daquele momento a viagem não era mais uma busca solitária por respostas a perguntas que ainda não foram feitas, mas um flashback de uma uma época em que jovens saiam sem rumo no mundo para conhecer pessoas e lugares e ter novas experiências para guardar na alma.

160924jj5766-1600pxNovamente era hora do embarque, dessa vez, para Campo Grande onde chegamos alguns minutos antes do esperado e por isso conseguimos pegar um ônibus na Rodoviária para Ladário as 12:30, o próximo seria só as 16:00. Mas não posso deixar de mencionar que poderíamos ter perdido o embarque dentro da rodoviária por causa de duas senhoras que estavam a nossa frente e que levaram mais de dez minutos para comprar suas passagens.

Corremos para embarcar no Andorinha (Empresa de ônibus que faz a linha), onde comemos nosso almoço, o sanduíche gourmet do Alê.

No meio do caminho, uma parada no Zero Hora em Miranda e continuamos a viagem.

Já dentro do Pantanal Sul Mato-grossense, o espetáculo do reflexo do crepúsculo nos alagados que cercavam nosso caminho, a BR-262.

Depois de oito horas de viagem surgiu a primeira pergunta. Eu aguentaria esses doze dias com há vinte anos? Acho que essa era a minha única preocupação que brotava no meio de meu entusiasmo de escrever mais essas páginas em minha vida. É nesse momento me restou a contemplação do sol vermelho que tombava atrás de nuvens que sustentavam um céu laranja. Onde está a foto? Apenas na minha mente. Dessa vez me dei ao luxo de simplesmente contemplar.

Nessa primeira tarde, o nosso caminho estava nublado, o que deixou nossas paisagens opacas e sem vividez. Acho que foi por isso que não vimos nenhum jacaré.

Primeira parada, Ladário.

160924jj6645-1600pxChegamos em Ladário-MS, no meio do Pantanal, sendo recebidos por um grande abraço de minha tia e fomos direto para a Procissão de Nossa Senhora das Mercês para depois, finalmente comer o famoso arroz carreteiro da tia Zildelene e do tio Nivaldo e rever parte da família em minha terra natal -Eu já me dava por satisfeito apenas por esse dia, mas vamos continuar.

Nesse primeiro dia começamos a nos desligar da vida agitada e fria da cidade grande, eu de Brasília e ele de São Paulo. 

Hora de dormir, pois o próximo dia duraria mais de 24 horas.

Aguarde a próxima semana para saber mais espere o post da próxima semana com dicas importantes da viagem e de fotografia.

Parte 2