Rumo a Uyuni – Sétimo dia – Vermelho

 Parte 7

“Os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde; Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro; Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido.”
― Buda

Banho?

160930jj6697-fullhdAinda era madrugada quando o despertador interrompeu o nosso sono. Cara de sono e falta
de coragem para levantar e tomar banho naquela fria e escura madrugada. -Alguém cogitou em banho por aqui às cinco da manhã? Não me lembro.- Então, todos se levantaram, se agasalharam, arrumaram o quarto colocando a bagunça dentro das mochilas -Cada um que leve sua bagunça.-, e foram ter o seu único contato com água para higiene na escovação dos dentes. Naquele momento, já não éramos mais apenas um ponto de luz sustentada por baterias no meio das trevas do Altiplano Boliviano, o sol raiara. Ao lado do alojamento, no restaurante, fazíamos a primeira refeição do dia e obviamente degustávamos mais chá de coca para ter disposição.
Walter, o nosso guia, acordou mais cedo. Preparar nosso café da manhã com tudo que tínhamos direito depois ele aprontou o carro. Terminado o “desayuno” (café-da-manhã), partimos para a Laguna Colorada.

Vermelho

Embarcamos no carro, junto com nossas mochilas e expectativas. Para trás, deixamos apenas a poeira que não nos permitia mais ver o alojamento no interior da Reserva 160930jj6914-fullhdNacional de Fauna Andina – Eduardo Avaroa na Bolívia e perto da fronteira com o Chile. O caminho foi curto dessa vez. A Laguna era bem perto. Ao chegar, não sei precisar bem, mas centenas de flamingos nos esperavam… -Não, não nos esperavam. Fomos sem avisar.- Eles estavam em sua busca diária por alimento naquela laguna de salmoura tingida de vermelho por um tipo de alga que vive em água salgada e que é o alimento que atrai uma grande quantidade de flamingos para esse local.- Nessa hora, descemos o barranco para ficar mais perto da beira do lago cheio de flamingos, ilhas de sal (borax) e alimentado por águas quentes de nascentes a poucos metros de sua margem. Enquanto uns caminhavam solitariamente em Flamingos.meditação, outros, eufóricos, fotografavam tudo o que viam no começo, mas aos poucos a percepção do comportamento dos flamingos foi crescendo e permitindo-nos prever algumas cenas que poderíamos fotografar. Uma das cenas mais interessantes naquele lago raso era a corrida de decolagem dos pássaros e o voo baixo, quase rente a água, se comparado aos voos que testemunhamos no lago Uro-Uro (ver Rumo a Uyuni 4 – Sobre as águas). Cenas essas que fascinaram o Alexandre, que diga-se de passagem, fazia fotos cada vez melhores a cada dia que passava apenas com as conversas sobre a essência da fotografia e de como escolher o que fotografar.
Infelizmente não podíamos passar o dia inteiro lá, era hora de embarcar para nosso regresso a Uyuni, mas não sem antes passar mais uma vez pelo deserto de Siloli…

Salvador Dalí esteve aqui?

Fotógrafo sendo fotografado no Arbol de PiedraNesse árido deserto, considerado parte do deserto de Atacama, passamos por várias formações rochosas, mas a que mais chamou nossa atenção foi um monólito natural de formação geomórfica por erosão causada pelo vento forte da região – traduzindo: uma pedra interessante de se ver.-, o Arbol de Piedra (Árvore de Pedra). Mais uma vez, paramos para fotografar, caminhar e pensar na vida. Aqui, nosso guia Walter nos fez uma observação: “Aqui não há nada, não há plantas, não há animais, só há turistas…” Eu completo, há inspiração, tanto que se diz que as esculturas naturais de pedra inspiraram o artista surrealista Salvador Dalí.

poeta12Assim como na pintura “A persistência da memória”de Salvador Dalí, o tempo não estava
a nosso favor, os ponteiros do relógio giravam cada vez mais rápido. Não queríamos que aquele dia chegasse ao fim. Mas era hora de partir. Embarcamos e mais uma vez cruzamos o deserto levantando poeira, enfrentamos mais uma vez aquele chão, cruzamos com ciclistas, poeira e paisagens até o momento que Walter nos mostrou uma surpresa que havia nos reservado, a Laguna Negra, onde paramos para almoçar.

Quem sou eu?

160930jj6315-fullhdMas o que menos interessava era o almoço, de um lado, aquela laguna, diferente de todas as que vimos, no fundo de um vale, com um pequeno rebanho de lhamas e sua água escura, era a Laguna Negra. Walter nos disse que diferente das outras que são rasas e salgadas, essa era doce e profunda, chegando a 100 metros. Do outro lado, uma formação rochosa com viscachas (pronuncia-se viscátias) e turistas. Para quem não sabe, viscachas são 160930jj6570-fullhdroedores da família da chinchila que bebem a própria urina devido à aridez da região. -Esses são realmente sobreviventes aqui. Você faria o mesmo?-. Durante e após o almoço, veio um momento de reflexão em uma conversa que tive com a Kim. -Para quem não sabe, ela é sul coreana e se prepara para ser monge budista. Leia Rumo a Uyuni 5 – O Salar.- Começamos falando da viagem, o encontro de desconhecidos que passaram a ser os melhores amigos naqueles dias, nos estendemos no tempo e espaço até chegar a principal pergunta que você deve se fazer: Quem sou? -Não imaginava, mas sob a percepção budista é difícil responder a essa pergunta. Para nós ocidentais, a resposta é mais fácil ,pois não vem do íntimo, mas do estereótipo visível, como situação social, aparência… Mas para ela, na sua crença, é preciso um mergulho mais profundo para buscar essa resposta. Então, vamos deixar para falar isso outro dia, pois ainda não encontrei a resposta.-

Melancolia

Walter nos chamou. Era hora de ir. Cada vez mais a vontade de ficar apertava o coração.160930jj7523-fullhdPor que voltar? Aqui era o presente. No meio do nada, eu estava feliz. Todos a bordo e deixamos aquela laguna no passado ao subirmos em uma estrada de terra (carreteira 701) e depois a asfaltada carreteira 5. O deserto ficou para trás. Melancólicos, percebíamos os efeitos do cansaço enquanto verdes arbustos começavam a nos ladear. Paramos para as lhamas atravessarem a estrada, algumas vicunhas surgiam no caminho e cruzamos com poucos carros. Uma tristeza pairava sobre nós. Já havia saudosismo daqueles dias ao pensarmos no futuro. Qin e Zhou (os chineses) ainda ficariam em Uyuni, assim como eu e Alexandre, mas Kin (a sul coreana), tinha um voo marcado para aquela noite para o Peru.

O Show não pode acabar

Foi quando Walter interveio e sugeriu que poderíamos aproveitar o dia seguinte fazendo o 160930jj7620-fullhdtour das estrelas. -Como assim? Pegar uma nave espacial e viajar para lá?- Em um tour privado que vai para uma área alagada do Salar onde se pode ver o céu estrelado refletido na água. Nosso ânimo voltou!!!
Chegamos em Uyuni no fim da tarde, cansados, sujos e ricos de experiências. Momento de nos despedirmos de Kim e combinar o passeio do próximo dia, ou melhor, madrugada, com Zhou e Qin, fechar o pacote com a agência de turismo, voltar para o hotel … para limpar o corpo, pois a alma eu queria que continuasse impregnada com todas aquelas experiências, e dar uma volta na cidade a noite e tomar uma Huari (cerveja local) e jantar com nossos amigos.

Nossa aventura fica por aqui, hora de dormir (para nós), pois os próximo post começará as quatro da manhã o 4×4 nos levando à um local que poderemos ver as estrelas em um espelho d’água. Enquanto isso, veja as fotos que eu e Alexandre fizemos no sétimo dia.

Depois dessa viagem, Alexandre disse:

“Minha paixão por fotografia começou quando pela primeira vez utilizei minha DSLR Nikon D3100 (até então só havia fotografado com minha Casio Digital!!!) na travessia da Serra Fina. Eu não sabia NADA sobre técnicas de fotografia, somente utilizava o seletor de fotos pré-definidas da própria câmera! rs

Foi então que meu amigo e fotógrafo Johnson me ensinou algumas dicas sobre ISO, abertura e exposição, me incentivando a usar os modos manuais da máquina.
No retorno da travessia, as fotos ficaram muito melhores e achei o máximo! Meu equipamento é bem simples: uma lente 18-55mm com VR e uma lente 70-300mm totalmente manual. Vale lembrar que minha Nikon D3100 é uma câmera de entrada!
Mas foi na travessia do deserto que a evolução foi assustadora. Como escolhemos viajar por terra (trem e ônibus), aproveitei os longos percursos para aprender com o Johnson o máximo possível: modos de foco, abertura, exposição, enquadramento, uso de polarizador, cuidados ao substituir as lentes, balanço de brancos, compensação de exposição, e lógico… fazer fotos em alta qualidade (RAW).
Durante as fotos, não cansava de pedir ajuda, dicas, socorro… rs
E na volta da viagem, revelar as fotos utilizando o adobe lightroom foi uma experiência incrível!!! As fotos ficaram muito, muito boas mesmo!!!

Acredito que o segredo dessa evolução foi a forma com que venho aprendendo a fotografar: na prática, de forma leve, inspiradora, focando naquilo que eu quero mostrar, e não nas técnicas e regras básicas de fotografia. Eu jamais conseguiria ficar por mais de 15 minutos em uma sala de aula aprendendo sobre fotografia… eu nem mesmo tive paciência para ler o manual da câmera! Mas fotografando, errando, testando e acertando, hoje consigo até mesmo fotografar um cenário noturno, mostrando aquilo que vejo com minha própria perspectiva.

Valeu brother!!! Hoje eu adoro fotografar!!!!!!!”

Rumo a Uyuni -Terceiro dia – Subindo a serra.

Parte 3

Parada para o café com Wi-Fi

Enquanto o sol despontava numa manhã de segunda-feira e o trem rompia o maior perímetro urbano que vimos durante toda a viagem. Era Santa Cruz de la Sierra. Hora de deixar o sono para trás e preparar a mochila para a próxima etapa.

Novos amigos no caminho
Novos amigos no caminho

O trem parou na estação Bimodal (Ônibus e trem) e de nosso vagão, como era de se esperar, as poucas pessoas que haviam, desceram. Mas o que impressionou foi a grande quantidade de pessoas que desceu dos últimos vagões. Havia outra classe? Onde elas embarcaram? 

Ainda antes de descer do trem, começamos a conversar com um casal de brasileiros que estava indo para Macchu Picchu no Peru e que passariam aquela noite em Santa Cruz, nós, seguiriamos direto. Antes de prosseguir viagem, saimos do terminal e fomos a um hotel para tomar nosso café da manhã e aproveitar a Wi-Fi de lá junto com nossos novos amigos.

Como pegar um ônibus.

Continuamos a viagem em um ônibus (cama) da empresa Bolivar até Cochabamba em uma viagem que durou dez longas horas passando em uma longa planície antes de subir a montanha. Em sua única parada, descemos em um complexo de estabelecimentos comerciais voltados à alimentação e conforto dos viajantes a borda da carreteira 4 (estrada). Tá bom! Eu estou exagerando. Em frente àquele pátio de estacionamento de terra, poeira e lama, haviam botecos, ambulantes e dois ambientes maiores que vendiam almoço. E também havia o principal, por apenas um boliviano, o banheiro. Conforme fomos subindo, a estrada ficava pior, o ônibus começou a andar mais lentamente, o clima mudou de calor para um clima agradável de montanha, as estrada ficaram sinuosas e beiradas por penhascos e os motoristas faziam ultrapassagens perigosas constantemente.

Algo que chamou muita atenção era a constante entrada de ambulantes que vendiam desde balas e almoços até sorvetes e remédios. O mais interessante foi um vendedor na chegada de Cochabamba que fez uma propaganda melhor que o Polishop para vender um extrato de não sei o que curava tudo.

Rodoviária de Cochabamba
Rodoviária de Cochabamba

Na rodoviária de Cochabamba, vimos o caos de gente gritando os destinos, eram os vendedores das lojas angariando clientes para as empresas. Restava-nos decidir a empresa que nos levaria. Em meio àquele caos de empresas que tiravam bilhetes manuais ou preenchidos na máquina de escrever, encontramos uma empresa que tinha uma fila e o atendimento era informatizado. Decidimos que era essa a que provavelmente não entariamos em roubada e foi ali, na Trans Azul, que compramos a nossa passagem para o dia seguinte com destino a Oruro.

Em busca do sono perdido.

Agora, estavamos a procura de um hotel ou hostel para descansar e encontramos um perto da rodoviária através de um App de mapas off-line. Haviam muitos outros na região, mas optamos por nos hospedar apenas naquilo que já havia referência no Trip Advisor.

Depois de um bom banho, era hora de conhecer a cidade e comer algo. Acabamos comento um Pique a lo Macho, que é um prato tipicamente boliviano composto de pedaços de carne, frango, linguiça, queijo, pimentão, cebola, tomate e batata frita misturado. A porção que nos disseram ser para uma pessoa, era mais que suficiente para quatro. Nós, que estavamos com fome, mal conseguimos comer a metade e acabamos levando a outra para uma moradora de rua.

Cochabamba nos impressionou positivamente naquele primeiro contato pois diferia muito daquilo que vimos no caminho. Uma cidade grande, aparentemente bem organizada, com prédios, teatros, cinema, restaurantes e  uma linda praça rodeada de prédios em estilo colonial espanhol, entre eles, a prefeitura e a Catedral Metropolitana, chamada 14 de Septiembre (data da independência de Cochabamba ao julgo espanhol). Como ainda precisávamos descansar, conhecer Cochabamba ficará para uma próxima vez.

Parte 2, Parte 4