Rumo a Uyuni – Oitavo dia – O Céu

“No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas.”

Aristóteles

Parte 8

Tem que sair da cama?

Sim!

O frio batia a nossa porta naquela madrugada de primavera andina, mas foi o maldito despertador que nos deu a notícia de que aquela noite de sono devia se encerrar naquele momento. Eram três da manhã e pulamos da cama. Não queríamos perder por nada o nascer do sol no meio do Salar de Uyuni. Mas dessa vez seria diferente. O sol nasceria em um espelho d’água.

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Um pedacinho da Via Láctea.

Pontualmente, as 3:30, o guia em seu 4×4 veio nos buscar e dali passamos para pegar nossos amigos chineses. Ainda no caminho, recebemos nossas galochas, pois desceríamos em uma área alagada e não seria nada agradável molhar o pé na água em um ambiente com temperatura abaixo de zero. -segundo o nosso guia, ali chega a vinte e seis abaixo de zero nessa época e que essa noite foi quente e a temperatura ficou levemente acima de zero, que continua sendo frio para pobres mortais brasileiros.- Saímos da estrada e entramos no Salar. Começamos a andar sobre o sal, que visualmente parecia neve compactada. Podia dizer que nos guiávamos apenas pelas estralas no céu, pois eram as nossas únicas referências. Nesse momento, me lembrei que antigamente era assim e fiquei imaginando as grandes navegações e seus navegadores usando o sextante, pois nem sempre existiu o GPS. Confiamos na experiência de nosso guia que não era mais o Walter. E de repente, o barulho de água nos paralamas. O céu caiu no chão e começamos a andar sobre ele.

Andando no céu

No meio daquela paisagem surreal, paramos o carro. Era hora de decidir entre ficar confortavelmente dentro do carro olhando passivamente o Salar e as estrelas dando seu espetáculo ou descer, enfrentar o frio congelante, pisar na água e fazer parte daquela cena ímpar em que o céu e o chão se confundem.

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O prazer de contemplar as estrelas enquanto tremia de frio.

Obviamente optei pela segunda opção. Não importava o que o corpo sentiria -Até a hora que o Alexandre disse que achava que os dedos do pé estavam congelando.- mas o que a alma sentiria. Desci, caminhei, ora olhando para o céu, ora olhando para o horizonte e hora olhando para a água sobre a qual eu caminhava. Andei, andei e parei para contemplar. Me sentei em um banquinho que levamos e pude ver aquele espetáculo com calma -enquanto tremia de frio-. As estrelas desciam do céu para se esparramar sobre o chão espelhado. A Via Láctea tomava o céu e eram tantas estrelas que parecia que as constelações haviam ganho novos pontos de luz. O tempo passou e as estrelas correram para dar lugar ao sol que estava vindo para tingir o céu e o chão com as cores de sua aurora.

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Aurora.

Mais uma vez, ficamos impressionados com a beleza daquele momento. Sentimos o quão pequenos somos encaixotados em no conforto de nossos apartamentos absorvendo passivamente aquilo que nos apresentam, sabendo que há um mundo enorme para explorar e vivenciar. Cabe a nós decidir se seremos suco de caixinha em uma prateleira sempre com o mesmo gosto ou se seremos o próprio fruto, com muitas possibilidades de futuro. Pois no final somos o fruto de nossas experiências e iterações.

Perto de nós, havia um outro grupo, creio que de japoneses, que fazima muita bagunça e as fotos tradicionais. Deviam estar se divertindo muito sem se importar com o frio.

O sol nasceu. Mais uma vez, apesar dos pés quase congelados, não queria ir. Mas o show havia acabado.

Como um uyuniense.

Depois de mais um cochilo, partimos para o lado não turístico da cidade. Aquela impressão de organização e higiene que tivemos na Avenida Ferroviária, de onde partem os comboios turísticos, começou a sumir rapidamente. Um certo caos e confusão começou a surgir quando fomos em direção à rodoviária. -Eu disse rodoviária?- Ou melhor, uma rua onde paravam os ônibus onde haviam várias agências que ainda emitem o bilhete manuscrito da passagem.

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Rodoviária de Uyuni.

Entramos em algumas agências para nos informar sobre ônibus para Oruro ou Cochabamba -os itinerários daqui não aparecem no Google.- e confesso que me preocupou a precariedade das informações dadas pelos atendentes. Ainda mais na precariedade dos ônibus. Então, voltamos ao plano inicial que era de pegar o trem.

Passamos na área comercial da cidade, no mercado central e o que mais chamou nossa atenção é que aqui todos são bem tratados, inclusive os cachorros de rua. Cachorros circulavam no mercado em um restaurante que fica lá e ninguém os enxotava. -Bolívia é Pet Friend!-. Os preços da alimentação são mais baixos que da parte turística da cidade, mas optamos por não arriscar a nossa integridade gastro-intestinal para economizar alguns pesos bolivianos.

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Temos de tudo no mercado.

 Na feirinha, a minha dificuldade foi circular entre aquelas tendas baixas sem bater a cabeça. Vendem de tudo que pode chegar naquele local, desde roupas e eletrônicos a comida e produtos de medicina natural – aqui tudo é curado com ervas e unguentos-. Voltamos à parte turística para almoçar e comprar algumas lembrancinhas. Aqui você pode encontrar variados tipos de sal em charmosos saquinhos para presente ou um cristal de sal – que achei bem bacana-, vestuário feito de lã de lhama e alpaca -de vicunha não se acha, pois estão protegidos por lei-.

Olha o trem

Confesso que a visita que fizemos ao cemitério de trens no primeiro dia aqui em Uyuni me deixou um pouco decepcionado. Haviam muitos turistas o que dava o aspecto de parque de diversões.

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Apareceu um turista.

Não podíamos sair daqui com aquela má impressão, então, resolvemos voltar ao cemitério no fim do último dia.

Pegamos um táxi e fomos ao cemitério. Chegando lá, apenas um jovem boliviano que parecia aproveitar a solidão do lugar aquela hora. Mais uma vez, era hora de compartilhar a sensação de estar no meio de uma ruína ferroviária enquanto o véu da noite nos cobria e a vontade de guardar aquelas cenas exóticas em nossas memórias eletrônicas (câmeras fotográficas).

Alexandre, mais uma vez se empolgava com suas próprias fotos ao colocar em prática os conhecimentos aprendidos durante a viagem. Era a hora de fotografar as silhuetas dos trens.

Eu, observei, contemplei aquele fim de tarde que seria o nosso último naquela cidade que trouxe muitas sensações boas. Em poucas horas o trem partiria e nós seriamos seus passsageiros. Uma breve caminhada, reflexões e algumas fotos de despedida. O táxi havia voltado para nos buscar. Começava ali o nosso adeus.

O trem descarrilou!

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Cemitério de trens, sem turistas.

Já era quase meia noite e nada do trem aparecer. (nossa partida estava prevista para 00:05). O tempo passou e os atendentes não sabiam nos informar nada. O frio tomava conta do saguão, os passageiro já se acomodavam para dormir no chão da estação até que o Alexandre perdeu a paciência e foi reclamar da falta de informação e do frio. Foi quando ele conseguiu que abrissem uma sala com melhores condições térmicas para que aguardássemos e nos dessem a informação que o trem havia descarrilado no caminho entre Tupiza e Uyuni e que não havia previsão de chegada. -Descarrilado! Ainda bem que não estávamos dentro- Segundo um coordenador da ferroviária, o descarrilamento foi por causa do vento que jogou areia sobre os trilhos e um vagão saiu deles. Nada muito grave, mas que levaria tempo até conseguirem colocar o vagão de volta nos trilhos. Então, nada a fazer senão dormir no chão.

3:30 da manhã e finalmente o trem chegou. Pelo visto, substituiram o vagão que descarrilara. Como sabemos? O nosso vagão havia sido substituido.

Embarcamos sem mais transtornos e rumamos para Oruro no caminho de volta e mais um restinho de noite de sono.

Precisavamos economizar forças, pois mais quatro dias de viagem nos esperavam.

Adeus Uyuni

 

 

Aguarde a volta.

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